HISTÓRIA DA FREGUESIA

São Paio dos Principais de Vilar de Figos

 

A freguesia de Vilar de Figos ou dos Principais de Vilar de Figos, orago São Paio, foi uma vigararia da apresentação do D. Prior da Colegiada de Barcelos.

O nome de Principais vai buscá-lo a uma lenda que vem narrada em alguns livros e corre na tradição do povo.

É a seguinte: tendo os cristãos sitiado o castelo de Faria, durante o curto domínio árabe nestas terras, defendiam-se estes obstinadamente, quando os moradores desta freguesia se lembraram pôr em execução um estratagema.

Certa noite juntaram um grande rebanho de cabras, prendendo-lhe nas pontas dos seus chifres velas acesas, e, tomando caminho de Barcelos, marcharam com grande alarido sobre o castelo.

Os sitiados, julgando que tinham chegado importantes reforços ao campo inimigo renderam-se e entregaram o castelo aos cristãos.

Por os moradores desta freguesia, devido à sua astúcia, serem os principais cooperadores no bom êxito daquele feito guerreiro, tomaram o nome de Principais.

Nas inquirições de D. Afonso II de 1220 vem com a designação - «De Sancto Pelagio de Principaes», nas Terras de Faria.

Nessas Inquirições se diz: que o rei tem aqui XI casais bem como duas quartas de dois casais.

Também aqui possuem terras o Hospital, Banho e São Salvador de Fornelos.

O Censo da população de 1527 trás - «Titulo do jullguado de Farya, a freguesia dos Principaes 46 moradores».

É para notar que nos documentos mais antigos de que tenho conhecimento, como as mencionadas Inquirições e aquele Censo, vem esta freguesia com a designação apenas de São Paio dos Principais.

Quando começou a usar o nome de Vilar de Figos não sei.

O que é certo é que na Corografia Portuguesa do Pe. Carvalho, cujo I volume foi impresso pela primeira vez em 1706 já vem «S. Payo de Vilar de Figos» e daí em diante aparece-nos sempre com o nome de São Paio dos Principais de Vilar de Figos ou simplesmente São Paio de Vilar de Figos.

A Matriz desta freguesia primitivamente esteve no lugar da Igreja Velh. Porém, como era muito pequena e acanhada, o brasileiro Pedro Gomes Simões, daqui natural, mudou-a, mandando fazer à sua custa, nos meados do século XVIII, a actual em s´tio mais central.

É um templo de sólida construção cercado por um Adro fechado por paredes com duas portas de serventia. A seu lado esquerdo ergue-se-lhe a Sacristia.

Do outro lado foi construída uma outra dependência em forma de sacristia que serve de casada de arrumação.

Dentro o templo é amplo e espaçoso, com tectos de castanho pintados.

Os altares laterais são modernos, de talha simples, mas o altar-mor é antigo em estilo barroco.

A capela-mor foi alteada há poucos anos e o baptistério contém duas pias: uma maior e outra mais pequena, ambas com a data gravada na pedra – 1888.

Possui esta Igreja uma preciosa custódia que, quando da primeira invasão francesa, tendo Junot lançado uma contribuição de guerra na qual eram abrangidas as pratas das Igreja e Confrarias, o Tesoureiro de então escondeu, escapando assim à rapacidade dos invasores do nosso país. Em frente à Igreja, do ouro lado do terreiro, fica a Residência Paroquial, modesta e sem nota.

A antiga matriz, no lugar da Igreja Velha, depois da sua mudança para a actual, foi caindo em ruínas até que desapareceu.

O Cemitério Paroquial foi construído no terreiro, ao lado esquerdo da Igreja, e tem sobre o seu portão a data quase apagada – 1889.

Nessa mesmo terreno existem dois cruzeiros: o antigo, tosco e sem arte, e o moderno, ao lado daquele, sem inscrição nem data.

Este mandado construir por Joaquim Ferreira dos Santos, da Casa Santiago, em 1928.

Há as seguintes Alminhas: umas junto ao Cemitério com um alpendre de pedra em duas colunatas que tem na frente a seguinte inscrição; «M. F. ANTONIO. J. S. F. – 3 – 1888 – 8 – e outras no lugar do Ribeiro.

Esta freguesia, situada na encosta do monte da Franqueira, cujo prolongamento é aqui conhecido por monte de Vilar de Figos, na bacia orográfica do Cávado, é banhada pelo ribeiro, a que já ouvi chamar Zarague, que nasce nas Poças do Casal e por Faria vai unir-se a outros na Lagoa das Necessidades, Ponte do Estreito, formando todos juntos o rio Tinto, afluente do Cávado.

Tem as seguintes fontes públicas: a da Aldeia, a do Loureiro, Nova, a do Sapo, a dos Santos e a de Vila Verde.

Cercada do norte, nascente e sul por extensos pinhais, que a tornam rica, é servida pela Estrada Municipal de segunda classe (em construção) que de Pedra Furada, Estrada Municipal de Barcelos às Fontainhas, vai a Paradela e Cristelo ligar à que daquela cidade vai à Póvoa de Varzim.

Confronta pelo norte com as freguesias de Milhazes e de Pereira, pelo nascente com a de Pedra Furada, pelo sul com as de Courel e Paradela e pelo poente com a de Faria.

A sua população no século XVI era de 46 moradores; no século XVII era de 70 vizinhos; no século XVIII era de 104 fogos; no século XIX era de 495 habitantes, e pelo 7.º Censo da População é de 556 habitantes, sendo 229 varões e 327 fêmeas, sabendo ler 186 homens e 61 mulheres.

Tem Escola Oficial que funciona em edifício príprio bem como Caixa do Correio.

Esta população está distribuída pelos seguintes lugares habitados: Aldeia, Vale, Outeiro, Ribeiro, Igreja, Rotea, Igreja Velha, Outeiro da Igreja e Hospital.

O Lugar do Hospital não quer dizer que aqui houvesse algum hospital, mas simplesmente que era constituído por terras que pertenciam à comenda de Chavão, da Ordem do Hospital de S. João de Jerusalem.

As suas casas mais importantes são: a da Eira Velha, a da Arroteia, a do Amaro, a dos Figueiredos, a de Jorge de Baixo e a da Lomba.

O seo comércio reduz-se a duas lojas de mercearia e não tem industria digna de nota.

Dos homens ilustres, cujos nomes andam ligados a esta freguesia, destacaremos os seguintes:

Pedro Gomes Simões, natural desta freguesia, indo para o Brasil, ali adquiriu fartos haveres.

Voltando à pátria, foi um benfeitor desta freguesia e da de Miragaia, no Porto, onde fixou residência e faleceu em 1780 com 80 anos de idade.

A Confraria do Sacramento de Miragaia, grata aos seus benefícios, colocou o seu retrato nas salas das sessões com a seguinte inscrição: «Pedro Gomes Simões, Natural de S. Payo de Principaes de Vilar de Figos, Termo de Barcelos, Arcepispado de Braga, Instituidor do Sagrado Lausperenne Nesta Freguesia De S. Pedro de Miragaya. Faleceu De Idade De 80 Annos Aos 18 De 9bro De 1780 Deixando A Irmandade Por Testamenteira, J. G. F.».

As últimas letras daquela inscrição querem dizer: Joannes Glama fecit.

Dizem que este é um dos melhores retratos de Glama.

O Dr. Paulo da Cruz, natural desta freguesia, foi também um dos seus beneméritos.

Pe. António Pereira da Silva, natural desta freguesia e Pe. António Pereira Lomba, pároco de freguesia de Airó e depois desta freguesia, donde eram naturais.

Realiza-se aqui uma festa tradicional denominada Romaria da Senhora ou Festa das Rosas, no último Domingo de Abril, característica e antigamente muito concorrida.

Na última excursão que fiz a esta freguesia notei um facto que me causou grande admiração.

Percorrendo-a em vários sentidos, não encontrei pessoa alguma pelos campos, estando as casas, que são muitas, fechadas.

Era na primavera, quadra de trabalhos campestres e a horas em que não havia sesta, o que mais fez aumentar a minha estranheza.

Eu e os meus companheiros, intrigados com tão insólito costume, fomes de lugar em lugar, espreitando por cima dos muros que marginam os caminhos, a ver se lobrigávamos alguém.

Desanimados e prestes a retirarmos, ao descer uma calçada desenhou-se por fim aos nossos olhares, no quadrado de uma janela fronteira, o meio busto de uma frescalhuda mulher, que através dos vidros desconfiadamente nos espreitava, parecendo-lhe ver em nós talvez algum beleguim que da cidade viesse citar ou fazer penhora, não a sua casa, que era de pacatos e abastados lavradores, mas à de algum infeliz vizinho.

Por mímica fizemos-lhe compreender que lhe queríamos falar.

Levantou então a janela de guilhotina, debruçou-se no peitoril e correspondeu às nossas saudações.

Para tirarmos receios e desconfianças dissemos-lhe quem éramos.

Aflorou imediatamente ao rosto da lavradeira um sorriso de satisfação e fez-no convite para bebermos uma pinga.

Estabelecido o contacto com a simpática criatura, ilucidou-nos acerca do eclipse quase total da população.

Havia nesse dia, disse ela, um julgamento importante no Tribunal de Barcelos e, como era costume nesta e noutras freguesias, toda aquela gente, homens, mulheres e crianças, tinha ido ver as formalidades judiciais de tão solene acto, ouvir as testemunhas e os advogados, os quais falavam melhor que o senhor abade aos domingos nas práticas na Igreja. E ela se não fora também é porque tinha de olhar pela casa e tratar da bichesa.

Passamos em seguida a pedir-lhe certas informações e tivemos sorte; a mulher era esperta e sabia muito.

Tomado assento em uma pedra arrumadas ao lado do caminho em frente à casa e ela à janela, procedeu-se ao interrogatório: o amigo Silva fazia a inquirição, o amigo Antas, de lápis em punho e papel sobre o joelho, escrevia, e eu, entre as espirais do fumo de um luso, olhos semicerrados, beatificamente ouvia e tinha a sensação de um burguês afortunado que vê trabalhar os outros. E foi assim como de colheram a maior parte dos elementos para a história desta freguesia.

Extraído do Livro “Aquém e além Cávado”, de Teotónio da Fonseca